- Eu te trouxe flores azuis hoje.
- São flores de maio?
- Não sei. Eu nunca sei os nomes das flores.
- Você sonhou com elas?
- Não. Foi uma coisa que eu calculei fazer enquanto vinha pra cá.
- Feliz aniversário, meu amigo.
- Como você sabe que dia é hoje?
- Todos os dias o rapaz do jornal passa aqui e grita a data e o preço da edição.
- Você acha que ele faz isso por sua causa?
- Não sei. Não sei até que ponto eu realmente estou aqui para que alguém estranho me faça favor.

Do outro lado da rua havia apenas um buraco imenso e fundo formado pelo último prefeito que não conseguiu terminar uma obra, já que resolveu ocupar o dinheiro com prioridades extraordinariamente particulares. A cada chuva, o buraco erodia nas bordas, expandindo-se. Uma comissão decidiu colocar cerca de madeira ao redor, mas, minutos depois, um grupo de mendigos recolheu todo o aparato, elaborando vasta sorte de produtos e providências, de simples abrigos a espadas de lutas imaginárias. Eles gostavam de se deitar à frente da casa verde de Clarice. Freqüentemente dispunham os corpos nus diante da janela iluminada e não entendiam porque a dona da casa nunca chamara a polícia.

- Seus olhos estão mais claros hoje.
- Com o tempo eles ficarão totalmente brancos.
- Onde está seu lenço?
- Perto da caixa de costura.

Ele amarrava o lenço sobre os olhos de Clarice. Ela sentia as mãos finas e muito suaves sobre seu rosto, depois o nó. Era sempre o mesmo gesto: o nó, arrumar o cabelo que ficara preso, depois colocar as mãos duras sobre seus ombros estreitos. Movimento triangular.

- Quando você vai me deixar tocar seu rosto? Quero te ver.
- Estou muito longe ainda. Preciso vir aqui mais algumas vezes ainda. Dia de sol?
- Não é assim que se diz. Você não está longe. Está incompleto. Você é muito devagar. Sim, venha num dia de sol.
- Hoje eu tive que vir só com minhas mãos e minhas pernas. Desculpe. O frio estraga minhas decisões.
- O inverno ainda vai demorar a acabar, eu sinto nos ossos. O frio não estraga suas decisões. Estraga você todo.

O inverno persistia.

- Oi Clarice.
- Amor!

Ele fez o triângulo. O lenço de seda era mais fino que as pétalas das rosas espalhadas sobre a mesa. Ele não falou das rosas. Ela sentiu apenas o perfume cintilante e bruto das flores. Mas eram despedidas. Não disse nada. Arrastou a cadeira pesada lá de dentro, da sala e encostou os joelhos nos joelhos dela. Segurou as mãos de Clarice com firmeza.

- Veja meu rosto. Hoje eu trouxe meu rosto. Desculpe ele estar gasto e apreensivo. É o frio.  Não consegui deixá-lo melhor. Está frio, eu sei que está. Eu sonhei outra vez.

Ela não ouviu. As pontas dos dedos redesenhavam e interpretavam as conexões entre as partes. Ao mesmo tempo, ela percebia o cheiro de acetato, látex, silício, titânio, porcelana, resinas. O cheiro da vida impossível e, ao mesmo tempo, tão premeditada. Ele havia sonhado. Talvez ele não saiba realmente o que seja um sonho. Ela já não sonha. Todos os humanos foram privados de sonhar havia muito tempo. O buraco lá fora aumentava. Os pássaros cintilavam para as árvores próximas. O buraco enchia-se de si mesmo, enchia-se de suas bordas erodidas, vomitava-se para dentro de si e crescia apressado, como se estivesse atrasado para seu próprio destino em ser grande e profundo.

- Clarice, eu sonhei. Precisamos
- Quieto. Deixe-me ver você com atenção.

A onda de lama subiu alguns metros, propulsionada pelo rio que ficava há alguns quilômetros dali e que, por sua vez, encontrou-se com o buraco em expansão, que não negou o enlace, mas não havia mais para onde ser. A onda de lama, pedras, cacos, paus, telhas, ossadas, detritos e restos subiu, cobrindo e arrastando. Cobrindo e arrastando, até que não houvesse nada além de lama, pedras, cacos, paus, telhas, ossadas, detritos, restos e rosas muito vermelhas.

 

Da lei da escrita diária

29 Junho, 2008

“Melhor escrever para si mesmo e não ter público do que escrever para o público e não ter a si mesmo.”
Cyril Connolly (1903 - 1974)
*

Eu esqueci de verdade onde foi que eu li “Deve-se escrever todos os dias”. Procurei. Não encontrei nada parecido, apenas conselhos. Descobri que a unanimidade fomenta a tal regra, chega a ser estranho, uma auto-ajuda para escritores.  Gosto especialmente do argumento de que, assim, construímos uma “voz”.

Mas eu não escrevo todos os dias, da mesma forma que eu não faço sexo todos os dias, nem como paella todos os dias. Então, perco a oportunidade de ter a tal da voz bacana, encorpada, consistente, da mesma forma que perco a oportunidade de ter um bom orgasmo todos os dias, e de arrotar paella todos os dias.  Meus textos devem parecer gargantas arranhadas numa manhã de protesto. Melhor. Meus textos devem soar volúveis, verdadeiras putas bestiais que trabalham quando querem e bem entendem, e ainda tratam mal o cliente, refestelando-se em auto-indulgência.

Eu conheço alguns escritores. Um deles me disse que leva meses pra escrever uma coisa. Meses. O ritmo dele é extraterreno. Exigente. Requer voltas e aventuras e emoções desafiadoras, veja bem, em casa, na segurança do terreno particular, mas fértil. Outro, que também nem sonha em escrever diariamente, me confessou uma vez que precisa sofrer para poder escrever. Ele precisa ter do que reclamar. Ser derrubado, rendido, açoitado, de preferência por um moreno alto e forte. E ainda outra precisa reclamar também, mas, principalmente, dela mesma. Estar decepcionada com as próprias limitações.

Eu?

Escrevo hoje. Amanhã, se puder. Um dia eu vou ver que escrevi o meu quinhão, que eu não precisei de muitas pausas, que tudo fluiu livre e soltamente.  Por enquanto, o que me move, HIC ET NUNC, é falar das regras. Não há regras. Escreve, meu amigo, se quiser, quando quiser. Só não esquece de esquecer as regras.

* “Better to write for yourself and have no public, than to write for the public and have no self.”
Cyril Connolly (1903 - 1974)

 

medianiz

27 Maio, 2008

We were made not to remember.
novesfora
42
Meus pés estão gelados e é aquela sensação constante de desconforto, de faltar base. O contraste com o resto do corpo aquecido. Falta força para vestir meia. Os pés descobertos, o desânimo, o umbigo empoeirado, falta falta
CMYK
Falta
(Eu ando de saco muito cheio de quem só acha tudo ruim): escrito no muro
Quem escreve essas coisas?
Ontem mesmo, estava escrito em outro muro: eu te amo pra sempre
RGB
Sempre
Ontem eu ainda tentei, com o rosto oleoso colado ao vidro sujo da janela, lembrar de você com carinho inocente, aquela mesma força em querer te ver, mas não acho o ponto onde te soltei.
We were made not to remember. Não encontrei as migalhas que me faziam ver tuas pequenas mortes diárias, as secreções dos teus hábitos – não encontrei, de uma ponte a outra, nada houve de você, um rastilho, e eu fui ficando sem paciência, e aquela nitidez impressionante que me chacoalhava os ossos – a tua presença física dentro de mim – aquela nitidez de quem ama sem reciprocidade, sem manteiga, porque se alimenta das cinzas da fogueira da presença anterior, funeral mágico, magnificat . 42. Ontem, quando o segundo barco deslizou pelo fio da navalha, quando o cão atravessou a rua para cobrir os restos de outro cão, eu imaginei com força, a mesma força da onda que se aplica à efemeridade, onde você estaria dentro de mim, por que escombros. Mas seu rosto tornou-se o rosto duro de quem atirou pedras demais, o rosto duro do vampiro que forçou todas as janelas, extinguiu todo suprimento.

Foi com espanto, e um pequeno grito, que vi tua sombra velha no chão tornar-se luz. Abri uma janela para que partisse, antes do anoitecer.

 

“And besides you’re probably holding hands
With some skinny, pretty girl that likes to
Talk about bands and
All I wanna do is ride bikes with you
And stay up late and watch cartoons.” – The Moldy Peaches, Nothing Came Out

Desceu as escadas correndo para ainda dar tempo de dar um beijo nele, mesmo com a boca cheia de pasta de dente, não tem importância não, é melhor assim mesmo, ele não vai se importar, sujou a roupa, merda
Escorregou enquanto descia, quebrou o tornozelo

Gritou pelos vizinhos, a única pessoa que deu importância foi o cara da cobertura que tinha uma moto
(enquanto isso, no final da avenida, ele subia no ônibus)

De baby-doll, suja de pasta de dentes, deixou que o cara da cobertura a colocasse na moto, o pé pendurado de um jeito estranho, como se fosse uma peça extraordinariamente posicionada na extremidade do corpo, engoliu pasta de dentes, mordeu a língua, sangrou, engoliu pasta com sangue

O cara da cobertura era médico ortopedista. Achava a situação engraçada. Perguntou se ela queria um chocolate

Ela pensava: como é que pode, como é que pode, como é que pode eu ser um animal tão imbecil e limitado e imbecil de querer, porra, que dor do inferno, como é que eu tenho essa idéia de sair de meias e baby-doll pelas escadas eu só podia mesmo era me foder nessa

Tentou não pensar

Sentiu o cheiro de sabonete do cara da cobertura que agora era doutor cara da cobertura, um cheiro de sabonete simples, desses que realmente são capazes de levar tudo embora, até dor de cotovelo, sim, porque ela sabia que a dona que andava por lá tinha se mandado da pior maneira possível, levou a TV. Doutor sabe xingar

Deu-se conta, no hospital, de que estava sem calcinha e sem sutiã e de roupa transparente e de que muito bem poderia morrer naquela hora. Doutor cara da cobertura veio. Sem conversar. Colocou-lhe um gesso. Deixou-a em casa

Acendeu uma vela no canto do quarto, colocou uma camiseta, viu a inutilidade de só colocar uma camiseta agora, ficou pelada. Deitou no sofá, dormiu, esperou. Esperou. Dormiu novamente

O outro, o do ônibus no final da avenida, nunca mais apareceu. Ela sabia que deveria ter descido antes de começar a escovar os dentes, aquela manhã

 

i´m a cat.
a catwolf.
a cat-like wolf kind.
i´m a wolf.
a wolf that walks and talks like a cat.
a wolf with cat stripes.
a purring wolf with cat ears.
a purring-hawling stubborn catwolf.

 

marca d´água

22 Abril, 2008

(aos meus amigos, ondas selvagens)

“Se você não demorar muito,
posso esperá-lo
por toda a minha vida”– Oscar Wilde

A tua fuga é imanente. É o preço na pele de quem fica, de nós, os que acenamos. A tua fuga é perpétua, é a presença da ausência, é morder a boca ao se comer algo tão esperado e sentir apenas o gosto do sangue; lá está você, mais uma vez, no gesto de quem já vai muito cedo, mais cedo, é preciso chegar mais cedo para, depois, deixar esse outro lugar, e ir a mais outro, (teia do argumento dos teus espectros: ir-se).

(Você está na minha vida através da sombra alongada no chão, saco de dormir, bitucas inda quentes, coisas que se atrasaram de você, caíram-lhe dos bolsos, coisas que se atiraram para que eu as abrigasse na minha bolsa, ou que você mesmo lembrou-se de esquecê-las por ali, gentilmente. Minha bolsa é um canguru gestante de vestígios, minha bolsa é um saco de provas, as provas recolhidas de um crime, a porta vai batendo, já dá o horário. O teu.)

A tua fuga é crime perpétuo, a imanência da ausência, plenilúnio dos nossos ensaios de dizermos o que deveríamos ter dito: faz favor, fica mais um pouco, come aqui esta sopa, veja, estávamos só te esperando, fique. Mas você é da família das ondas: junta águas de espécies todas, as movediças, as ardentes, as salgadas, as doces, aquelas águas de banho, águas de poço, moringa, o orvalho. Levanta sobre nossas cabeças, despeja-se, recolhe-se. E nós ainda tentamos beber da tua presença, mas tudo é um naufrágio, nossos rostos salpicados de tuas águas, nossas lágrimas.

 

This is just a glimpse

21 Abril, 2008

Pocket Wolf sliding down the ceiling
Woven dreams in a lost thread
I wish today´s your lucky day
Just for the sake of wishing

Pocket Wolf made out of star flesh
Traveled lazily across the floor
I wish tonight´s your lucky night
(What was it streaming down your glowing face?
I knew, I would say, I knew it was ________.)

Pocket Wolf, cat prince, lord of the weird-dream land
You end up turning into the greatest riddle
And dancing the only dance you could ever teach
(me): the sophisticated dance
Of spinning alone
For the time being

I wish this year´s your lucky year.

 

diário(?) de sonhos

9 Abril, 2008

Dreamscapes built in flash memory

 

Sessão da tarde

6 Abril, 2008

(once again, to my worn out friends.)

 

“A amizade nasce no momento em
que uma pessoa diz à outra: O quê? Você também?
Eu pensei que eu era o único.”  C. S. Lewis (1898 - 1963)*

 

 
O caso é que eles decidiram, aos 14 anos, deitar todos juntos numa cama de solteiro que estava largada nos fundos da casa do Bugio, o dono do armazém com cara de lua espalhada. Bugio, esse era mesmo nome e não havia escapatória, pensava em Marlon Brando e Nick Cave quando usava a cama para suas práticas de final de tarde, o menino da empregada, calado, bem quietinho aí. Os três, não se sabe por que, mas há crédito no informante, presenciavam, rostos escondidos entre as mãos, por detrás da cerca dos fundos que dava para a janela do quarto onde estava a cama, presenciavam todas essas coisas, menino mais dono do armazém, e iam para casa logo após, apreensivos e de espírito exausto, como se tudo não passasse de um filme disforme, um susto, uma fatalidade que se aproxima dizendo olá.

- Ele gosta, é certo.

- Não, não é certo e ele não gosta, não é possível.

- Mas, veja bem, o que leva um menino grandão daqueles a deitar-se com um camarada pequeno, feio, dentes podres e tudo, o quê?

- Não, sei, Alex, não sei. Deveríamos saber essas coisas?

- Eu quero.

- O quê?

- Eu quero deitar com vocês dois naquela cama.

- Como? Como assim? Deitar ali pra quê? Fazer o quê?

- Aquilo. A mesma coisa. Quase. Eu sou menina. Acho que deve ser diferente.

- Ai, meu deus.

- Que foi, Leo?

- Eu não sei se eu quero isso.

- E o nosso pacto de sangue? Impossível, impossível. Vocês dois não podem me negar nada. Eu já vi o pau de vocês, eu já vi e se vocês me negarem isso eu vou contar para TODO mundo que vocês me mostraram essas coisas medonhas. Não estou brincando. Eu quero. Eu quero, e pronto.

-Ela não está brincando. Falou “pau” e tudo mais.

- Não mesmo, Caco, estamos ralados nessa.

- É, raladões, os dois.

 

Bugio saiu cedo de casa. Não se sabe como nem porque, não voltou. Até hoje ninguém mais sabe de nada sobre isso. A única coisa de que se tem certeza é de que Alex abriu a porta na ponta dos pés, estendeu um pano sobre a cama e despiu-se silenciosamente.

- Agora vocês.

Eles tiraram as roupas com os joelhos trêmulos, as idéias convulsas, as mãos cobrindo o sexo. Eles se aproximaram do corpo dela, como se estivessem os três se protegendo de um frio intenso. Encostaram os três rostos um no outro, tocaram os três pares de lábios como puderam e deram-se as mãos. Deitaram-se, assim unidos, sobre o pano vermelho de Alex. Nesse mesmo dia, não se sabe como nem porque, um menino forte, o rosto magro, fugiu com o circo.

 

* “Friendship is born at that moment when one person says to another: What! You too? I thought I was the only one.”   C. S. Lewis (1898 - 1963)

 

Volonta

3 Abril, 2008

chopper

 

(to my worn out friends)

“Quem inventou você fui eu, porém
Eu tenho que desinventar, pro bem
Preciso me livrar de tudo o que é você
Um espaço pra criar um outro alguém” (Reinvento _ Gram)

Foi quando saí para matar Carlos. Saí da minha paz alopata, da sombra do armário da cozinha prestes a cair sobre o chão frio, saí do burlo, levei buril, boina, banana, casaco, vai chover. Sou velha, não tenho pressa em matar Carlos. Ele não vai sair dali, de onde está. A fila não anda, as filas não costumam andar como deveriam, do contrário não seriam o exercício da crença no predicado do dia: ordem; você quer ordem e não encontra. Ele me disse muito pouca coisa, ele gostava mais de ficar me ouvindo. Sou velha, ouvir é trabalho meu, ouvidos esfolados, proficiência em seleção. Ele me disse muito pouco, descia as escadas, apanhava um livro no chão, subia as escadas, os osso estalando, eu pensava em mato seco queimando, um dia eu vi o meu homem – sim, a aspereza do homem – eu vi, ele andando pelo mato seco. Trazia um saco de tudo o que podia carregar, comida, ração, reagir. Carlos não sabia reagir. Aliás, ele não sabe, acho que isso me tira o sono, essa coisa toda, ele ali, com a cabeça pronta para alguém descer-lhe o madeirame, ou a navalha, ou a maça, jogos de abate, cutelo. Gosto de usar boina, que era nosso jeito de dizer o que queria, tapando a mente para poder mentir, controle, controle. Ontem choveu, o casaco cheira à umidade e doce, os escondidos. Eu saí para matá-lo, e não há ninguém nesse mundo que sonhe com isso, nem que sonhe com Carlos ou qualquer coisa relacionada a ele e à remota existência dele, alguém, alguém tem que fazer isso, porque pensar em Carlos é, indissociavelmente, querer matá-lo com violência, pensar nele é estar na ordem do dia com os diabos da justiça, da ordem e do equilíbrio supremo. Faço porque posso, principalmente. Já perdi, já paguei todas as contas, já escrutinei todos os orifícios do mundo os menores, já vim, vi, venci e toda essa porra que deixa a gente careca, sem dente, cansado, podre. Eu, podre, avanço nesse chão para alcançar o fim do meu progresso, o fim da legião motriz, o fim da reflexão inadvertida sobre Carlos e suas variáveis. Hoje, foi quando saí para matar Carlos. E eu não vou voltar.