Diário de dentro do tornado I 6
Eu só fico imaginando o que pode estar acontecendo agora, lá naquela cidade italiana, no interior da Calábria, Cessaniti, Piazza Guglielmo Marconi. Aqui anda chovendo e parando, chovendo e parando. Estava na rua e tive que parar, na marquise de um salão de beleza; logo ao lado havia uma casa com motivos chineses, que vendia comida natureba. Deu vontade de comprar um quilo de arroz integral, mas eu precisava passar no banco antes que a chuva apertasse e eu terminasse fazendo unha de madame ali no salão. Não poderia ser esse o futuro sonhado por meu pai para mim. Higher standards. Estava ouvindo CSS no iPod, um disco novo que seria lançado logo mais, ainda no mês de julho, e por conta da avant guard tecnológica vazou em um site.
Fico imaginando que mais nada é realmente novidade, no sentido nietzschiano da coisa toda. Não, com certeza aquele velhinho lá em Cessaniti, que estava sentado na porta de casa olhando a praça, não estava pensando na coisa toda.
Aí a chuva diminuiu e a Calábria foi parar em Júpiter; nem o Google Maps localizaria, pelo menos por enquanto. Andei rápido até o banco, que estava cheio, cheio de gente. Bem, se de gente mesmo ninguém pode saber. Demorei três minutos na fila até o caixa eletrônico, liguei para o um amigo enquanto fazia uma transferência, pronto, o dinheiro está na sua conta, beijo, lindo. Saí do caixa, guardei o cartão do banco, coloquei a carteira na mochila, seria ilógico usar óculos escuro nessa chuva.
E depois, até o final da semana, estarei naquela mesma rua que passei anos atrás, na Paulista, em algum barzinho. Só fico imaginando assistir a Hamlet, com aquelas falas tão ardilosamente adjetivistas. Ok, eu admito, vou chorar para caralho, eu sei, eu sei. Ademais, palestras na USP, muita literatura. Pelo menos não estarei confinado naquele salão de beleza, com aquela marquise vermelha horrenda, com um restaurante genérico na frente e um motel-hotel mais adiante na rua chamado Dó-Re-My.
Como o banco estava cheio! Desci as escadas molhadas, atravessei a rua, esperei o sinal abrir, dez segundos, atravessei outra rua. Um mulher mais velha, sendo semi-carregada por outra mulher e um homem, atravessou a rua, em sentido contrário ao meu, não pude evitar. Pensei no gosto do churros do cara da barraquinha, perto do outro que vende milho. Impossível não divagar sobre o que estava acontecendo ali. Pensei imediatamente na minha noite de sono e cheguei à conclusão que não me lembro dos sonhos dessa noite.
Subi a rua apertando um pouco mais o passo porque a chuva fazia menção de piorar. Comprei uma Pepsi para o almoço, chequei o celular para ver se havia alguma ligação perdida, havia, mas muito desimportante. Peguei o troco, a Pepsi e fui pra casa. Até o final da semana ainda terei que varrer muita coisa do mapa, para fechar, e ir à sala de embarque só pensando em como é bom estar em Júpiter.
Nas categorias ar, diárioErnesto Diniz















