Diário de dentro do tornado I 6

20080707

Eu só fico imaginando o que pode estar acontecendo agora, lá naquela cidade italiana, no interior da Calábria, Cessaniti, Piazza Guglielmo Marconi. Aqui anda chovendo e parando, chovendo e parando. Estava na rua e tive que parar, na marquise de um salão de beleza; logo ao lado havia uma casa com motivos chineses, que vendia comida natureba. Deu vontade de comprar um quilo de arroz integral, mas eu precisava passar no banco antes que a chuva apertasse e eu terminasse fazendo unha de madame ali no salão. Não poderia ser esse o futuro sonhado por meu pai para mim. Higher standards. Estava ouvindo CSS no iPod, um disco novo que seria lançado logo mais, ainda no mês de julho, e por conta da avant guard tecnológica vazou em um site.

Fico imaginando que mais nada é realmente novidade, no sentido nietzschiano da coisa toda. Não, com certeza aquele velhinho lá em Cessaniti, que estava sentado na porta de casa olhando a praça, não estava pensando na coisa toda.

Aí a chuva diminuiu e a Calábria foi parar em Júpiter; nem o Google Maps localizaria, pelo menos por enquanto. Andei rápido até o banco, que estava cheio, cheio de gente. Bem, se de gente mesmo ninguém pode saber. Demorei três minutos na fila até o caixa eletrônico, liguei para o um amigo enquanto fazia uma transferência,  pronto, o dinheiro está na sua conta, beijo, lindo. Saí do caixa, guardei o cartão do banco, coloquei a carteira na mochila, seria ilógico usar óculos escuro nessa chuva.

E depois, até o final da semana, estarei naquela mesma rua que passei anos atrás, na Paulista, em algum barzinho. Só fico imaginando assistir a Hamlet, com aquelas falas tão ardilosamente adjetivistas. Ok, eu admito, vou chorar para caralho, eu sei, eu sei. Ademais, palestras na USP, muita literatura. Pelo menos não estarei confinado naquele salão de beleza, com aquela marquise vermelha horrenda, com um restaurante genérico na frente e um motel-hotel mais adiante na rua chamado Dó-Re-My.

Como o banco estava cheio! Desci as escadas molhadas, atravessei a rua, esperei o sinal abrir, dez segundos, atravessei outra rua. Um mulher mais velha, sendo semi-carregada por outra mulher e um homem, atravessou a rua, em sentido contrário ao meu, não pude evitar. Pensei no gosto do churros do cara da barraquinha, perto do outro que vende milho. Impossível não divagar sobre o que estava acontecendo ali. Pensei imediatamente na minha noite de sono e cheguei à conclusão que não me lembro dos sonhos dessa noite.

Subi a rua apertando um pouco mais o passo porque a chuva fazia menção de piorar. Comprei uma Pepsi para o almoço, chequei o celular para ver se havia alguma ligação perdida, havia, mas muito desimportante. Peguei o troco, a Pepsi e fui pra casa. Até o final da semana ainda terei que varrer muita coisa do mapa, para fechar, e ir à sala de embarque só pensando em como é bom estar em Júpiter.

Nas categorias ar, diário
Ernesto Diniz

 

Livro de Areia 5

20080629

São sete e meia, I begged Gil really, why. Ficar contando um monte de ficção de mentira, ficar descrevendo qualquer lugar e que peguei alguma coisa, olhei alguma coisa, comi alguma coisa, fodi alguma coisa. As lendas celtas continuam ali no Word, traduzidas, com comentários e análises, pedindo a revisão final e o botão send do email para orientadora tomando ritalina e sem atenção.  Tá, faz muito tempo que não escrevo aqui, talvez porque a vida real esteja mais interessante, mas, na verdade mesmo, anda mais atarefada. Viagem próxima porque uma hora o avião parte, adoro tanto as salas de espera. Da última vez estava indo pra Itália, há um ano atrás mais ou menos, ouvindo acho que Nine Inch Nails, tentando ler acho que uma Rolling Stones, que comprei logo depois de passar no detector de metais, ou um livro de contos do Borges (achei que o Borges combinava com a viagem, porque estava indo a Itália após um infarto de minha mãe, já safenada dos pés à cabeça). Puxei o moleskine da mochila tentando escrever alguma coisa, veio um parágrafo em inglês, dos mais clichezados do inferno, cheio de adjetivos, desisti no ato, acho que foi por causa do Borges, mas eu não chegaria à sua cutícula com meu moleskine e minha caneta hidrográfica preta. Joguei o moleskine de volta na mochila, junto com a caneta. Guardei a revista também, a bordo ela seria mais interessante. Fiquei lendo Borges, ou fingindo que estava lendo, porque tudo me chamava a atenção. A sala de espera estava cheia, com gente de todas as caras. Um grupo de excursão deveria pegar outro avião, o casal meio hype com filhas pequenas enchendo o saco, falando alto e comprando merda pra comer, uns velhinhos simpáticos mais à esquerda, talvez a passeio na Europa, uns três gringos à direita, possivelmente amigos, possivelmente tinham comido meia dúzia de putas e estavam achando o Brasil soberbo, ou comeram meia dúzia de michês, mas enfim, acharam o Brasil soberbo. Eu passava os olhos pelo livro e não lia nada. Virava a página e continuava sem ler. Eu só queria sentir o solavanco da decolagem, quando meus pêlos se eriçam e imagino fadas escrotas levantando as asas do avião e, aquilo tão improvável, seria verdade, um bando de gente indo pro outro lado do oceano. Levou mais uma hora e meia até a chamado do vôo, tempo que gastei fingindo que estava lendo, ouvindo meu iPod e reparando nas pessoas. Entreguei meu bilhete, junto com o passaporte pra receber um boa viagem simpaticamente automático. Entrei no avião tão feliz de estar atravessando o oceano a bordo do improvável, seriam umas oito horas de vôo mais ou menos até Madri, onde, tinha certeza, só reparariam na cor do meu passaporte: eu de uma subcasta inferior, a dos brasileiros mundanos. Mas, na verdade, o cara da alfândega em Barajas foi muito simpático fazendo piadinha com a minha tatuagem do fogo e perguntando o que era aquilo. Respondi que era um fogo e nada mais. Deixei as putas que tinham pedido minha caneta emprestada pra preencher o formulário obrigatório pra trás, seria meu presente pra elas, tão perdidas ali. É, faz muito tempo que não escrevo aqui, mas vou voltando. Antes preciso enviar meu texto pra orientadora, revisar, escrever um artigo pra relatório final de pesquisa, viver mais quase duas semanas até eu estar, novamente, na sala de espera do aeroporto, agora não mais no embarque internacional, rumando pra São Paulo, acompanhado, com os pêlos eriçados por conta das fadas nas asas do avião.

A foto: tirei no dia 08/06/2007, no aeroporto Fiumicino, em Roma, a caminho de Bari. Já tinha comigo um sanduíche com coca-cola e estava entediado esperando o próximo vôo. Será que era o Saramago?

Nas categorias diário, fogo, éter
Ernesto Diniz

 

A revolução é agora 2

firefox3 Ando bem afastado aqui do blog, seja pela falta de tempo, inspiração ou esperança na humanidade virtual. Deixa o semestre da faculdade acabar, aí volto aqui.

Enquanto isso, sejam testemunha de uma mini-revolução. O Firefox3 é realmente muito bom! Clica na figura ao lado pra baixar a nova versão do navegador!

Nas categorias diário
Ernesto Diniz

 

Clones, we’re all 3

A história do clone renderia um roteiro de Hollywood, com final feliz.
Caso encerrado, voltamos à nossa programação normal.
;)

Nas categorias curtas
Ernesto Diniz

 

Fui clonado no orkut 1

 

20080520

Sim, eu fui a nova vítima. Já denunciei ao Google e mandei minha carteira de morotista escaneada, lindo. Agora estou aguardando a retirada do desocupado que não tem o que fazer.

 

Meu perfil: www.orkut.com/Profile.aspx?uid=4114800598851353959
O perfil do marginal: www.orkut.com/Profile.aspx?uid=17931511084348059213

Nas categorias curtas
Ernesto Diniz

 

Starbucks 4

Ele disse que passasse o açúcar.
Ela segurou o garfo entre dois dedos e entortou a boca.
No exato momento em que ele pensava naquele livro.
(De poesias, naturalmente.)
O cigarro foi amassado no cinzeiro, sem tempo de pedir ajuda.
Ela falou que calasse a boca, que não agüentava mais.
Era a vez dele entortar a boca.
Ela não pediu o açúcar.
Ele passou o sal.
Sal pela mesa, ele lembrou do pó que nunca cheirou na vida.
Ela lembrou do pó que ela já cheirou na vida.
Ele perguntou como estavam os amores.
Ela disse que não havia amores, que ele não a quis.
Ele negou, disse que brincava com aquilo das palavras.
Ela disse que não fosse assim.
Ele se sentiu mal e pediu desculpas de boca fechada, mas no rosto estava um pesar.
Ela disse que não, perguntou alguma coisa sobre futebol.
(Mudou de assunto, naturalmente.)
Ele ficou irritado, odeia futebol.
Ela disse que também não gosta de futebol.
Ele disse que se não quisesse mais falar, não precisava.
O cigarro estava tomando a brisa da manhã no cinzeiro.
Ela falou que era melhor ficar na superficialidade do café.
Ele pensou que superficialidade era uma palavra da qual não gostava.
Ela se escondeu numa floresta bem longe de tudo.
Ele amassou seu cigarro sobre o cigarro dela.
(Agora eram dois sentindo a brisa, naturalmente.)
Ela disse que chegava e sentava e tomava café e oi-como-vai.
Ele entortou a boca novamente, queria ir se esconder numa floresta bem longe de tudo.
Ela disse que melhor assim, porque café é melhor que sentimento.
Ele continua escondido na floresta bem longe de tudo.
Ela está num lugar ainda mais longe que a floresta: ali na frente dele.
Os dois cigarros se amam no cinzeiro, a despeito da área de não-fumantes.
Ele diz que não acha que o café tenha gosto de superficialidade.
Ela acha que o gosto é de exposição.
Ele desacredita até da vida por um momento.
Ela não bebe uma gota do café e olha para o lado.
No exato momento em que ele questiona a tautologia das coisas.
Ela desenha um eu te amo no guardanapo e o beija.
(Beijo com certa ternura, naturalmente.)
Ele faz que não enxerga nada.
Ela passa o guardanapo, ainda com um pouco de açúcar na extremidade.
Ele beija o guarnadapo.
O cinzeiro cai no chão.
O que se pode fazer com tanta poesia?

Nas categorias cartas, peças
Ernesto Diniz

 

Bestiário das criaturas humanas 3

20080503

E certa feita lembrou que seu país não houvera declarado independência nem há 200 anos. Tivera nascido numa cidade fundada por brancos amarelados, cansados e vestidos em muitas camadas de roupa suja e marejada de tanto sal, que já fazia parte da própria pele. Como eles, se sentia tão desvantajoso nessa brincadeira de conquistar grandes tesouros e irremediavelmente improvável tentar limpar o sangue desses acontecimentos. “Não é assim tão natural”, diria ele enquanto empurrava um cigarro aos lábios. E mais depois já teria partido para o próximo assunto, mesmo com a alta vertiginosa das bolsas de valores.

Quando alcançou a idade dos 18 anos pensou que o mundo já não o imporia tantos limites e imaginou que era assim que Neil Armstrong também se sentia. Sentou no sofá, feito de pura aprovação no vestibular, e resolveu sair para beber com os amigos. Afinal a egrégora dos fermentados eram bem mais generosa que a dos destilados: pensou sem dizer uma palavra a João, porque, afinal, ele nem acreditava nessas coisas mesmo.

A cidade em que nasci é a mesma em que ela nasceu, mas esse não era o caso. Freqüentavam os mesmos bares e muitas vezes se viam nas mesmas peças de teatro, com surpresa, na mesma fila: B612. Mal se cumprimentavam com medo do que os outros achariam, afinal de contas, a uma altura dessas, já teriam colecionado mais de duas dúzias de pessoas em suas respectivas camas. O problema sempre foi os intervalos de dias, poucos dias, entre uma e outra. Ele deu com os ombros sem dar realmente, pensando que dar de ombros nos pensamentos serviria duplamente. Ela também deu de ombros em pensamento e assim tudo foi resolvido quatro vezes.

Uma vez, ele encontrou uma mulher para dividir um apartamento e ter coisas bonitas e casar, mas pensou que ter filhos já seria demais. Apelou à infalível desculpa de que o mundo está um horror. Fechou a boca logo depois do ponto final e esperou os olhares arrebatadoramente confirmativos dos amigos na mesa do bar. Alguém ainda comentou sobre o assassinato de crianças e as novas tecnologias que os encerravam em casa. Foi tudo muito rápido, como manda o protocolo. Meses depois a mulher sucumbiria à vontade primordial de transar com seu quase melhor amigo e ele à vontade esclarecedora de esquecer sobre outro assunto, além do de não ter filhos. Deixou as boas desculpas de lado, dessa vez inventou uma história resumida com um “aquela vagabunda filha da puta” no final. Esperaria os aplausos dos amigos dessa vez.

Depois de tudo, quando ela beirou seus 28 anos, achou que estaria ficando velha na hora certa. O prazo até os 30 esgotava-se a cada despertador na beira de cama, o qual, insistia, teria seu botão snooze apertado com o vigor dos guerreiros medievais, adiando assim sua felicidade mais 10 minutos, até que o atraso fosse muito e perdesse o emprego, a moradia, a dignidade e o escudo de ter 30 anos e estar “empregada na maior empresa de gerenciamento de danos da América Latina”. Nesse dia, ela escovou os dentes com exatas 29 escovadas de cada lado e, imaginou, se completasse com mais uma, de qualquer que fosse o lado, entraria automaticamente no Outro Mundo. Achou de bom grado colocar o despertador para 10 minutos mais cedo no outro dia, só por precaução.

No último dia da sua graduação resolveu transgredir. Levantou a mão mais de dez vezes na aula de Teoria da Lírica e interpelou o professor que era especialista em Adorno com teorias sobre a pós-estruturalidade das novidades o que, fatalmente, fez seus colegas o admirarem um pouco mais. Ele pensou que muitos haviam se surpreendido e Marta, tão sucinta e discreta, ainda pediu que tirasse uma dúvida sobre Sartre, ainda no meio da aula. Isso tudo durou mais de dois minutos e o foco da aula mudara do professor para ele. Ele sorriu internamente, afinal a aula era um saco e Adorno merecia mais do que aquilo. O professor resolveu interromper-lhe aos 27 segundos do seu comentário final. Ele graduou sem tirar a dúvida da colega e colocar o ponto final na questão. Encontrou o professor num bar meses depois, piscando-lhe o olho esquerdo e o abordando exatos 28 segundos depois, no banheiro, dizendo que estava com tesão nele. Ele declinou silenciosamente, interrompeu-o aos 3 segundo de seu comentário com um “sim”, colocou o pau pra dentro da calça e finalmente saiu do bar com uma coleção de pontos finais. Deixou todos no bueiro da rua, perto de onde havia estacionado o carro. Seu sono nunca fora tão rejuvenescedor.

Essa é uma vida que leva a histórias e história e histórias virando uma rua, outra rua, e mais, e mais, e mais.

Nas categorias terra
Ernesto Diniz

 

A little bit Siegfried 5

20080427

Eu acho que defendo valores medievais demais: lealdade e honra. Eu acho que é impossível viver sem uma poção generosa dessas duas coisas. Não os outros: eu. Eu não acredito em carregar o peso dos outros. Sorry, manage your own shit. Eu não vivo sem grandes doses de lealdade e honra. Talvez eu tenha tido uma educação assimétrica quando era criança, porque minha mãe sempre passava a mão em minha cabeça e meu pai sempre era enérgico e misterioso. Com certeza eu herdei essas coisas dos dois: um pouco de cada um; talvez não tenha sido uma herança direta dos exemplos deles, talvez tenha sido exatamente o contrário. Eu tenho certeza que aprendi muito com a natureza: com os matos por onde me meti, com as armadilhas pra pegar passarinho, com as frutas que silvestres que comia, com todos os nomes de plantas e árvore que eu sabia e ainda sei, com os banhos em poças de lama depois da chuva, com os bichos de pé, com as tardes inteiras andando de bicicleta numa cidade praiana no final de semana, com bem poucos amigos, mas valorosos, com um monte de brinquedos que eu tinha, com o videogame, com minha curiosidade sobre como as coisas funcionam – eu abria os bonecos dos Comandos em Ação, as fitas do Atari, os carros de controle remoto, os controles remotos das tevês. Mas é então que vem a idade adulta e com ela a insidiosa vontade de viver. Lealdade e honra não tem nada a ver com o mundo hoje, porque atrapalha a hype da coisa, o carpe diem, o carpe noctem, o vade mecum, o hic et nunc, o a prior e a posteriori, a ubiqüidade da burrice, a composição planetária, bloqueia os chakras, faz mal a pele, piora seu score na universidade, derruba sua reputação, emburrece seu eleitorado, desconjunta todas as juntas. Era para ser o contrário: não é. Mas é como o Joseph Campbell fala: o mundo é assim e pronto, acabou. E tem motivo pra ser, motivo esse que não é da nossa conta. Se não assim, como aprender tanta coisa, como experimentar de verdade, e chorar as pitangas, e chorar pela morte da cabrita, e chorar, e chorar, e chorar – em todos os sentidos. Menos, muito menos. Então eu prefiro viver com a minha armadura imaginária, bem longe das Inquisições, procurando meus dragões pessoais pra colecionar seus dentes e beber seus sangues, porque quanto mais problema, quanto mais obstáculo, mais sabedoria. E isso não tem nada a ver com Pollyana, tem a ver com os verdadeiros heróis. Sim, estou enlouquecendo completamente com as minhas leituras. Sempre que paro pra pensar, chego à conclusão maravilhosa que o isolamento bem medido e aplicado tem um efeito explosivamente positivo em mim. E isso não tem nada a ver com o arcano IX do tarô, ou melhor, tem um pouco a ver sim, tem tudo a ver. Tem tudo a ver com lealdade e honra. Eu acho que defendo valores medievais, e eu adoro ser assim.

Nas categorias diário, fogo
Ernesto Diniz

 

Wanderlust 2

He, who is formed of feelings, such as
Tables, cards, throwing, tossing, vehicle, blades, bows,
This one put on march, riding no flagged horse
In such a hurry one must shiver in awe

This is not neither you nor you, you see
This is a journey to come, a journey to have, a journey to step inside
There, this ceiling skies keep peeping tomming him virulently
But sad no more, for they take swords, rivals, ahunt, saddles well-trimmed
Composed by the clawness of daggered eyes
Steadiness of purposes, he would say

Yet this knife clouds piercing the slideness of souls and so
Lo, with such great colors raveling alight, you know

There were no origins in the scandalous fields, needless to say
Fostered by strange nurtured masters on flawlessness
But so ambiguous and dimly so fake
Albeit it was made of
Either me and you, you must see

Made of ox, stars, scattered places all around, kinds of bones
Sorts of riddles, all imbedded in misfitness, uncleanliness,
Misdirection, eventuality, humanity

And districts yonder parametering the damages aligned in stats
Lo, things leading to things leading to spiral gyre
You would ask him for help with no response but a mirror
You will shudder at the tryst of your murderment

It all comes from the same place unknown

We won’t need this much conclusion
We won’t need this much certainty about all that seems to be
He would dismissively reply

Contrived hero, Dragon Slayer Dragon, winged thrice
There is an initiation to come, to held and to let go
Stand back, lay around, light up a single cigarette
Right on the streets of the verbs still so unconjugated:
To panel, to canvas, to arrow, to vein, to stricken malice, to luminous

Notwithstanding this cracking material keeps on
Eavesdropping his heart beat
Thee made of stars and mantles and garments and apparels
Forged upon forges upon anointments and blessedness
These battles of yours are way too red and lasting because

Of middles you all made thou shelters and shields
Of middles are thou paths and seekings and, lo, what truly matters

Oh, lo, Dragon Slayer Dragon eaten infinite times
Civilizing the shrewd mob inside wale’s belly
Hindered shoulders, whining victory, humongous snares
Failing to sleep and to muster the hounds and to go a-hunting

There is no time till all that thee havest done, finish undone
There is no plenty of time till thee call for squires
Because, you know, it is so certain as cards castles
He, who is formed of unformed feelings, such as:
Battles, needle, death, to jump, to bid, to bet
Unsheath his relentlessness
And move again.

Nas categorias ar, poesia, sem tradução
Ernesto Diniz

 

Arcano XIII 6

Era uma noite normal, em casa, no computador, com a mesma desculpa de não ir parar na rua porque tinha que estudar, com um copo de coca variando de volume na beira do teclado do computador, sem a menor idéia do final de semana, para depois reclamar do peso, da solidão, do tempo que não se tem, da vizinha que não pára de assobiar, da luz que ninguém apaga na cozinha.

Aí surgiu a idéia de fumar um baseado, com as entranhas já desacostumadas do veneno, sem a menor vontade de continuar trabalhando numa tradução que levaria duas existências para ficar do jeito que ele queria, com a desculpa que, nuns vários piscares de olhos, estaria tudo resolvido e o trabalho seria avaliado com distinção; em sua cabeça tudo funcionava nesses compassos, de binários, hexadecimais, do extrato exato que ele tirava dos dedos e ia escorrendo no papel, em camadas grossas, fundando cidades naquele vale branco, civilizações, sem a menor idéia de fronteira, para os peregrinos colonialistas das suas idéias celebrarem felizes a conquista de mais uma paragem.

Desobstruiu um cigarro com baixo teor de nicotina, com a seleção de ervas que mais parecia pedaços pequeninos de folhas de qualquer coisa, sem imaginar que quem fumasse aquilo não passaria de ator portando cigarro cenográfico, fazendo pose num ambiente mal iluminado, para baforar bem forte e longe e parecer feliz, apenas um pouco feliz senão o trabalho do cigarro seria jogado todo fora; separou um pouco da erva que tinha guardada no meio de um livro do Fernando Sabino, de Encontro Marcado, aquela que vai libertando até bem perto da morte, que cortou um bolo de páginas com a desculpa que ali seria o esconderijo perfeito para aquilo, sem saber de toda a literatura geracional que passava por ali, afinal enfiou com a ajuda de um palito de dente a erva para dentro do cigarro desalmado, já cheio de nicotina e milhares de venenos sem filtro algum para erguer a bandeira da sanidade num monte bonito da foto guardada na estante bonita de cristais.

Foi até a janela fumar. Em doces puxões sua garganta foi ardendo, dando boa noite à fumaça espessa que ora agitava o estômago, ora irritava o pulmão com uma dose estranha de tosse e desconforto: na vida era essa a sensação, ora feliz, um pouco feliz para não estragar a dramaticidade do cigarro, ora triste dizendo que estava no trabalho totalmente abarrotado de coisas a fazer, guardando os sonhos sussurrando baixinho pra ninguém ouvir, com a certeza que aquilo, em alguns minutos que estavam por vir, o deixaria totalmente sereno e certo que era a hora para entregar-se; prendeu a fumaça tendo a certeza que em poucos segundos: não haveria mais fumaça ali, apenas em poucos segundos, no limiar daquela sensação que sobreveio galopante e muito calma, como uma pequena chaleira no fogo, fervendo água, tic tac pum, tic tac pum… tic tac… pum. E na batida final estava a morte, com cada segundo esticando-se um pouco mais e um pouco menos, tic tac… pum, que ouvia no final e esperava alguns instantes e respirava e sentia o coração desacelerado desacelerando, tic tac… e a morte dava-lhe um beijo no peito… tic… tac, e ele tinha certeza que a morte viria dali a alguns segundos e, ao mesmo tempo, era um desespero e uma sensação de ousadia. Pum, pum… tic tac.

Não agüentou e tirou tudo de cima da cama para deitar, sem tempo de pensar naquilo que estava sentindo, com a vida escorrendo através da cadência, tic tac, na contagem regressiva das almofadas sendo lançadas da cama para o chão, agora três, agora duas, uma, roupa no chão, livro no chão, lençol, com o travesseiro adornando a cabeceira, um pouco mais para a esquerda e ele indo pesar no colchão, com a morte apontando para o espaço entre seus olhos e eles sentindo um ardor que percorria o corpo, como uma febre que vinha em ondas e começava na testa e, ponto a ponto, ia ardendo em locais diferentes, no eixo do espaço entre os olhos, e na garganta, no peito, perto do umbigo, até um pouco abaixo do pau, no exato lugar do períneo, e alguns instantes passaram, sem a menor noção do que poderia acontecer, ele acenou à morte e fez a onda subir, voltando ao seu corpo, até a testa novamente e ele sabia muito bem que sobreviveria; aquilo não seria senão o portal a ser atravessado, com um medo muito além da tristeza amena da garantia da dramaticidade do cigarro, era assustador e desafiador, ao mesmo tempo; por via das dúvidas manteve-se deitado, com o corpo anestesiado.

Foi quando ele foi dormir, sem a menor noção do tempo que teria passado, do desafio que lhe foi lançado, com a sensação exata de saber cada passo, cada onda, cada linha que tinha de ser escrita: a tradução seria um sucesso, as almofadas alinhadas perto da cama, a roupa dobrada, a vilania medida, o celular para despertar exatamente às 8.

Nas categorias éter
Ernesto Diniz

 

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